Do Paddock ao Alambrado: Como países subdesenvolvidos vivem (e lutam) pela paixão de vestir a camisa
- Sabryne Almeida
- 21 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 22 de jul. de 2025
Como a ascensão da Fórmula 1 e a fama do futebol ao redor do mundo reacendem o debate sobre acesso, identidade e elitismo

Os uniformes da Ferrari, Red Bull, Corinthians, Boca Juniors e muitas outras equipes vêm tomando espaço entre os jovens latino-americanos, se tornando peças cobiçadas e itens imprescindíveis no guarda-roupa da molecada. No entanto, o preço ainda afasta quem carrega a paixão pelo esporte no peito, mas não no cartão de crédito. A cultura de rua, as falsificações, a criatividade popular e até o incentivo dos atletas ganham espaço num movimento que é protesto, e, ao mesmo tempo, pertencimento.
A moda sempre foi um movimento de expressão e identidade. Com a popularidade do futebol na América do Sul, principalmente com a rivalidade histórica entre Brasil e Argentina, estar vestindo a camisa que representa o seu time ou a sua seleção, há muito tempo vem sendo usado para marcar a sua escolha dentro de campo e as suas raízes.
Com o sucesso de Drive to Survive (2019) e, mais recentemente, o filme Fórmula 1 (2025), produzido por Lewis Hamilton, a paixão pelo automobilismo cresceu entre os fãs do esporte. Quem acompanha quer se sentir incluído, o que não é diferente no meio futebolístico. Apesar do fortalecimento do futebol europeu, a presença que o esporte tem na América do Sul é hegemônico, e logicamente, o torcedor latino-americano iria marcar sua presença.
Hoje, comprar uma camisa de futebol e de Fórmula 1 nos países sul-americanos é extremamente caro. O salário mínimo atual na Argentina é de ARS 313.400,00, que na cotação para o real é aproximadamente R$1.369,82. Uma camisa oficial da Alpine, equipe onde pilota o argentino Franco Colapinto, custa ARS 150.000,00 no Mercado Livre, quase metade da renda mensal de boa parte dos hermanos.
O lançamento atual do Boca Juniors, um dos times mais populares do continente sulamericano,segue numa média de preços parecida. No site oficial do clube, é possível encontrar pelo valor de ARS 119.999,00. Isso mostra que, pelo amor à camisa, existem torcedores que abdicam de suas necessidades básicas para apoiar o time do coração.
No Brasil não é muito diferente. Com a economia não tão estabilizada, o salário mínimo hoje é de R$1.509. Uma camisa do Corinthians, modelo jogador, pode custar até R$700 reais no site da fornecedora oficial do time, um pouco mais que um terço da renda mensal. O alto valor causa indignação entre os torcedores que manifestam nas redes sociais seus descontentamentos pelo preço cobrado.
Para tentar driblar os altos preços, torcedores têm recorrido à pirataria. Existem réplicas de qualidade semelhante às camisas originais por um preço acessível, como os modelos de fornecedores tailandeses. O que permite que o elo entre o fã e o esporte continue fortalecido.
Muitos atletas têm concordado e repassado essa mensagem. Eles reconhecem que o torcedor precisa de acesso digno ao esporte e itens licenciados, sem que isso comprometa suas finanças. Um exemplo popular foi do piloto argentino Franco Colapinto, que reconheceu que os produtos oficiais da Williams, equipe que correu durante a metade de 2024, eram caros e apoiou abertamente que seus fãs comprassem peças falsificadas.
A fala do piloto rapidamente viralizou e de certo modo, foi acatada pelos seus apoiadores. Durante o Grande Prêmio de São Paulo de 2024, num momento de interação dos fãs com o esportista, uma apoiadora pediu que ele assinasse uma camisa e gritou dizendo que era falsificada. O piloto e sua equipe riram da situação. Nas redes sociais esse momento virou um manifesto informal, pois a “remera trucha” se tornou um símbolo de identificação e orgulho.
Esse sentimento é compartilhado entre outros torcedores do piloto argentino como Elu, Gustavo e Yssi, membros da comunidade ‘Las Tías de Franco’, presentes em todas as redes sociais. Eles relatam que Franco abriu as portas para que seu povo pudesse comprar camisetas de forma não oficial sem vergonha e medo. Afinal, o único intuito é torcer e apoiar.
Gustavo vive em Miami e foi categórico ao afirmar que por viver nos Estados Unidos, tem acesso de forma rápida, barata e fácil a camisas de times de futebol e de escuderias de Fórmula 1 e lamenta que a América Latina não pode ter o mesmo.
Yssi mora em Buenos Aires e admite já ter comprado camisas não oficiais. Ela destaca que a qualidade pode variar conforme o fornecedor, mas que tem o costume de investir nos uniformes de futebol originais, porque diferente dos itens das equipes de Fórmula 1, não há cobrança de impostos extras para ter acesso ao material.
Elu vive em Córdoba, e conta que nunca teve condições de comprar seus uniformes de Fórmula 1 de forma oficial. Relata que os preços são exorbitantes e que não teve problemas com a qualidade das peças que adquiriu e conta que percebeu um grande aumento na qualidade das camisetas vendidas paralelamente.
Pode parecer que não, mas as marcas por trás desses times e equipes estão de olho nesse novo público, mas caminham a passos lentos. Existem coleções oficiais que barateiam os produtos, como, por exemplo, os “modelo torcedor” em uniformes de time de futebol, que custam metade do preço. Mas, assim como o preço, a qualidade também cai. E o fã não quer pagar por algo que continua sendo caro e pior do que já era.
As réplicas, então, passaram a ser não só uma escolha, mas uma necessidade. E a falta de acesso vira criatividade. Artistas independentes customizando camisas, fazendo uma fusão de cultura urbana com o automobilismo e futebol, por meio do upcycling. Grifes locais (da quebrada, do interior, de feirinhas), como a Autofãs, Grip.co, Retrôgol e a Althea Acessórios, fazem releituras de camisas com preços acessíveis. Até mesmo no brechós, onde é possível encontrar peças originais mais baratas do que as falsificadas, são alternativas utilizadas para estarem imersos naquilo que amam.
Na América Latina, vestir a camisa é muito mais do que uma escolha de look. É história de família, é domingo de manhã no autódromo e a tarde no estádio. É resistência, amor, revolta e orgulho. E mesmo quando o bolso não acompanha, o coração segue estampando as cores de um time ou de uma escuderia, nem que seja com tinta guache numa camiseta branca qualquer, lavada de emoção.







Hermosa nota!!!! Tal cual, mucha verdad en lo que decís, en Latinoamérica todo es más caro no sólo las camisetas, ir a un GP o un partido FIFA. Por ejemplo ir al GP de Sao Paulo desde Argentina piden más de 4000 dólares, estamos hablando que una persona debería guardar mas de 6 meses lo que gana s para poder viajar, pero ojo no podes comer, ni pagar nada, sólo ahorrar para cumplir un sueño.
La camiseta es una demostración de afecto y de apoyo del hincha al club tanto en fútbol como la fórmula 1
Me encanto la nota saludos desde Argentina